Eu? Morte promissora, carta marcada.
Anuncio, preludio, o anti-samba
Meu carcere, cela de carne
Fria por fora, fria por dentro
Me acabo, se me pergunto
Me respondo, me confundo
O eu já não é, agora somos
Coletivos individualistas
Se me pergunto, me calo
Me segue o mal trato
O destrato, o descaso
Se sou devo haver de ir
Se vou, nada mais sou do que ser
Nós? Base istantânea de matéria viva
Reprodução afirmada e continua
Perpetua, espécie foraz, que devora
Não, já não quero, já não sou
Já deixei, despreciso, desnecessito
Desquero, não faço parte.
Ou faço
E muito, no adentro, adultério
Alcool, nicotina, morfologias de palavras simples
Dores, gostos, pernas e cabelos e afins
Sim, ainda sou, embora deixe de ser
Embora morra essa morte falada
Um pouco a cada dia
E mais e mais durante a noite
Preciso do ato de ir, do partir
Do esquecimento profundo
Do deixar de estar no mundo
Preciso do abandono
De tudo que me foi
De tudo que me é
Que ainda me há de ser
O estar já não convence mais aos olhos
Nem ao toque, nem ao nada
O estar se resume somente em palavra
Morbidão, clareza eventual que vem e vem
E vai cedo demais, e vai e não volta
Como tantas outras coisas
Nesse sumo abrir de palpebras matinal
Mil coisas se passam
Um milhão
Entre seu dormir e seu acordar
Carrega toda energia, toda prova de energia
É o movimento pensante
Se move pelo universo, e tenta o compreender
É a energia pura do sol refletida por sua pele
Que de tão fragil e hostil, aos braços do sol envelhece
Ah, minha raça! Meus irmãos
Espécime catalogada desde os livros mais antigos
São deuses para si próprios, são heróis
São a mim, e eu, sois a vós
Uma única massa perecivel a caminhar
Com direções tão indenticas
Rumo a mesma evolução
Vivendo hoje nessa mera condição
Para amanhã provir de nosso sangue rubro
O anti-homem, o adeus eterno, o holocausto espiritual
A morte divina do que nunca viveu
O ápice corporal daqueles que foram longe demais
É por ele que eu faço parte, que me recuso a ir
Que não parto desse dia tão caótico que me espreita
Emprego-me ao dever da evolução, assim como tudo que é vivo
E me encontro, me compreendo.
Aceito essa limitada condição
Para que os que provenham
Possam ir além de olhos bocas orelhas narizes e pernas
Deixo prescrito no tempo tudo aquilo que desacretido
Que desconheço, que não sei e nem almejo a saber
Que o que é me é dado é nada, é pouca água
Que o saber de homem, é ainda menos que o saber de menino
Que homem não conhece luz, sabe nada dos gases que nunca viu.
Eu? Parte queimada de tantas partes
Doenças doente de tantos enfermos
Me consumo sobre esse corpo
Que de perto nem é meu
Nem é meu o cancêr que há de me matar
De me sugar as energias
Tal como minha pele suga ao sol
Meu cancêr, que de tanto se embebedar de mim
Há de morrer comigo
Na mesma hora, no mesmo dia
Meu pulmão furado
Meu estômago com hemorragia
Meu coração fálido
Mina imunda poesia
Todo juntos
Compartilhando a mesma cripta
Me abdico ocultamente de tudo que me apresenta
Em formas e sabores de prazer
Ao homem que sou deixo a herança
De não sermos mais o mesmo
Me divido agora em mil partes
Para que morram mais fáceis
As que já não me pertecem
E que não me reste saudade
E que não me reste esperanças
Falsas locuras diárias dadas na boca
E que morra em mim a capacidade
A crença, a vontade, o amor
que morra em mim a ilusão
de ser existência, realidade
que saíba plenamente tudo aquilo que não sou
que o que sou é explicito, estampado
em nossos rostos viris, que hão de beneficiar a terra
com os minerais componentes corporeos
que minha existencia seja esquecida por tudo o que viveu
contemporâneo a mim
que minhas referências nunca sejam remetidas
e meu nome nunca seja chamado
quando eu partir, que parta comigo o tudo
o sempre, o som, o cheiro, o beijo
sem precedentes por todo o nunca eterno
e expansivo.
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