terça-feira, 28 de agosto de 2012

Noite adentro - Aurora e outra qualquer poesia.


I
Porque minha carne queima em brasa,
E meu coração rompe o peito?
Porque toda noite é uma calada,
E se enxarca de suor meu leito?
Minha paz foi roubada
E no seu lugar ficou o desejo.
E agora meu corpo arde
E grita em desespero.
Porque o tempo se arrasta,
E só me cabe o anseio?
Porque são vazias minhas horas,
E sombrio o que eu espreito?

II
Onde foram as três moças
Que estavam a passear
Correndo descalças pela roça
Colhendo frutas no pomar
Onde foram as meninas
Que dançam ao meu cantar
Chupam manga e tangerina
E falam coisas sobre o mar
Onde foram? Onde foram?
Sumiram sob o luar.
Agora triste, eu morro aos poucos
E já não há mais meu cantar.

III
Venha ver que o dia raia
Que o mar quebra na praia
E não existe solidão

Venha ver que manhã linda
Que vem quando a noite finda
Rompendo a escuridão

Deixe morrer a saudade
Veja as luzes da cidade
Acalme seu coração

Que o que é meu agora é nosso
E na vida tudo que eu posso
É ser seu nessa paixão.

IV
Observe:
O primeiro ato é confundido
Desde que eu era menino
Julgava viver em vão
Mas um dia veio a chuva
Plantei maçã, plantei uva
Ficou verde meu sertão!
Em seguida veio a seca
Morreu parreira e macieira
E toda a minha criação
Foi-se embora minha querida
Deixou pra mim as margaridas
Plantadas em meu quintal
Já não faz sentido a vida
Passa noite, passa dia
O que era bem, tornou-se mal.

V
“Bem me quer, mal me quer”
Brinco eu com as margaridas
Heranças do meu amor
Que foi-se embora dessa vida

“Bem me quer, mal me quer”
Pião na rua a rodar
Dançam gatos e serpentes
Doentes de namorar

“Bem me quer, mal me quer”
Todo dia tem aurora
Mas agora vejo sozinho
Desde que ela foi embora

“Bem me quer, mal quer”
Bota o destino a passar
Vai-se a seca, vem o verde
Pipa de menino no ar

“Bem me quer, mal quer”
Acabaram-se minha flores
Nada restou da minha linda
Nem as pétalas, nem as cores.

VI
Quanto me custa a noite?
Quanto custa?
Custa as flores, os beijos
Os gritos desvairados
Os copo cheio de alcool
Os dricretos namorados
Custa o cheiro, a musica
O trago no cigarro
Me custa caro
E ao mesmo tempo barato
Me custa o arrependimento
E todo amor não amado
Custa o meu samba noturno
Gritado pra ser escutado
Quanto me custa essa queima?
Esse arder enclausurado?
Custa mil romances mórbidos
E nenhum vivenciado
Me custa o que eu tenho
E o que de mim foi roubado
Quanto custa essa noite?
Essa fome de pecado?
Custa a morte, custa a vida
Minha tristeza e alegria
Custa meu corpo, culpado.

sábado, 25 de agosto de 2012

O novo mostrador.


Átomos de nêutrons e prótons e elétrons
Física quântica em amores hereges
Silícios radioativos espalhados
Crianças indianas bispos e mulheres

Híbridos híbridos híbridos
Algum numero sagrado sempre o persegue
Lamentação atômica na periferia
Criamos a criação que nos precede

Camadas e dimensões que pouco diferem
Sorvete gelado nitrogênio gelado Alaska gelado
Quanto mais me aproximo mais me afasto
Da matéria que fui ao fluído que hei

Sou o novo porém renovado
Colorido pelas cores epiléticas do seu pecado
Do seu novo amor
Do som do seu rádio
Das palavras
Indizíveis
Indizivelmente
Indizíveis
O novo mostrador
A nova tela
Decapitada pela corrosão temporal
Pelo temporal corrosivo
O anti vida
O anti luz
O anti amigo
Poeticamente industrializado
Enlatado e rotulado e vendido
Pelas mais variáveis perfumadas
Biologicamente consumido

Armas e explosões envenenadas
Ciência gravada em taba de índio
Milhões de partículas indefinidas
De elementos retóricos e abrasivos

Livros de leis recém criados
Suco de laranja na manhã de domingo
Espécies de vida não catalogadas
Boiam pelo mar de verniz e acrílico

É da musica que toca
A prescrição do seu médico
Seu vago remédio
Pra curar sua cólera
Abstrata
Expressiva
Multiplicada na noite (veloz)
Pela sordidez de sua vida
Carnal e desumana
Falsa e profana
Sexual
Destemida
É do vento que te corta
Te abrindo a ferida
Cheiro de vaca morta
No longo dobrar da esquina
E na rua se sucede
Seu andar em terra divina
Qual nome te daremos?
Quais serão suas utopias?
Pode ser que seja Ana
Maria, Paula
Carolina?
Pode ser que seja sonho
Querosene
Gasolina!

O gosto do gosto que escolher
Dispersa-se pelo seus paladares
Seu e do seus clones concretizados
Biogeneticamente modificados
Prontos a testar
A falar
Admirar
Amar
Em seu nome.

Um grande poema de adeus.


Isso tudo é só um grande poema de adeus
Nossa despedida nos persegue
Nossos prazeres são ilusões
Pequenos lapsos de luz
Que pairam pelo universo
E tudo é um grande poema de adeus
Nada mais.

As horas são um adeus constante
A vida em si é pura despedida
Cada palavra, cada escolha
Se torna mais um verso
Desse poema de adeus
Envolto em seda e cetim.

Já que é assim, e vai ser pra sempre
Deixe que o mar te abandone
Deixe que as flores te ignorem
Que a vida é pedaço pequeno
Pequeno demais de tudo
E o adeus é faca cortante
Que corta e corta

Deixe que o mundo seja mais mundo
Em seu quintal de orquídeas
Doce e fatal primavera da minha vida
Deixe que os campos passeiem por seu colo
Sob a dura redenção de seu olhar de veludo
O ultimo lance de escadas para sua morada secreta
Clara e noturna como penumbra que precede o luar
Deixe que venha seus amores pela garganta
E os esparrame sobre o chão de vidro e cobre

A hora marcada palpita em cada embalo de seu coração
Ah Amanda minha, esqueça o adeus e as horas
Não deixei que o tempo nos extermine assim
A sombra do nunca é nossa caçadora fiel e atroz

Invente comigo um novo caos, uma nova forma
Um alimento inconseqüente, um ensaio de morte
Para que sejamos os pais de malte da reminiscência
Eu e você nesse universo de gases e explosões atômicas

Recrie o mesmo sonho todas as noites
Em sua cama vermelha carmesim
Em sua língua desvairada e imortal
Recrie seu sonho por mim, por nós
Deixe o adeus para os outros

Deixe que o céu te despreze
E que a musica jamais soe por você
Que o esquecimento nada combina
 Com belas histórias de amor
Deixe que o dia acabe mil vezes
Tudo isso é só um grande poema de adeus
Uma grande vida de adeus
É ser juiz e júri de si
É estar sentado no banco dos réus

Aviso aos homens.


Avise ao homens que minha vida ainda é plena,
E que minha morte é tardia.
Avise a todos aqueles que me julgaram tolo
Enquanto eu era generoso
Que não há nada que caíba mais a um homem que sua humildade
E que a tolice, em muitos casos é uma benção.
Avise aqueles que dizem que amaram mais que eu,
Que o amor é claramente abstrato
E como dizer se alguém amou mais o mar do que eu amei?
Como dizer se alguém amou mais a vida do que eu amei?
Avisem à eles que eu pouco me importo com sua vã filosofia
Que eu não ligo para o seu Deus, nem para os seus dêmonios
Digam para aqueles que me achavam louco
Que a sanidade deles não trará nenhum brilho eterno
Avisem-os que a mesma carruagem obscura que virá me buscar
Vira busca-los também!
Que eles saibam que será a mesma terra a nos decompor
A mesma morte a nos apavorar.
Avisem eles que pra mim tudo é indiferente
Que eu não quero saber sobre seus engenhos e suas artes.
Digam para aqueles que me acham triste
Para que me ensinem a medir a felicidade das pessoas.
Que eu nem se quer sabia que havia como medir tal sentimento.
Avisem aos que me dizem ignorante
Que para mim a cultura deles é forjada em mentiras e ilusões
E não me apetece me proclamar sábio dentro de bobagens.
Avisem aos religiosos, aos que me excomungaram
Que nada mais eu posso a não ser rir de tais absurdos,
Como pode outro homem me negar um reino inventado por outro homem?
Digam aos querem ser lembrados, que eu faço questão de lembra-los
Desde que todos eles me esqueçam, e nunca remetam nada mim.
Avise os ricos que eles não devem doar nada aos pobres, devem negar!
Negar e esperar que os pobres acordem e se revoltem logo contra eles.
E não se esqueçam de avisar ao solitários e decadentes
Ao indios que vivem envoltos pelo verde astuto das florestas
Ao caiçaras que tem o mar aberto como casa
Aos agricultores que cultivam o milho, a batata
Ao criadores de cabras do sertão
Digam à eles, por favor, que eu vos invejo profundamente.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Nós.


Esses pelos no meu corpo
Me mostram a cada dia
O bicho do qual eu sou
E não me há providencia divina
Se eu como:
Sento e cago!
Se eu bebo:
Logo eu mijo!
Se por acaso me corto
Me jorra um sangue vermelho
Tal como boi abatido
Nas câmaras frigoríficas
Espalhadas por aí
Eu menino
Antes ainda da palavra
O leite branco mamava
Nos peitos da mãe
Como mamam os cachorrinhos
Da sua cadela que cria
Na caixa de papelão
No cantinho da cozinha
Cheiro minha comida
Mistura de mato colhido
Com carne morta de bicho
O que mais se come?
Se come vida que se multila!
Se eu corro vem suor
Fedor que exala
Da minha pele enrijecida
Caldo que escorre de bicho
Pelas minhas axilas
Isso pra não falar do coito!
Que é que dá vida a vida
Coitar fornicar penetrar
Ser fêmea e ser invadida
E se melecar toda
Na prática repodutiva
Ser macho e apavorar
Quando passa a fêmea propicia
Sentir o cheiro do cio
Ir suar com ela
Morder ela
Lamber ela
Chupar tudo nela
Cães na rua
Nós na cama
Jogar sua saliva pelo corpo
Em todas as partes
Mastigar o cabelo
Secreções da parte intima
Sai gozo genital
Fecunda o óvulo da vagina
Passa inverno e verão
Mais uma vida nascina
A mamar mais leite branco
Cagar meleca fedida
Arrotar e vomitar
No colo da mãe querida
Que carregou na barriga
Toda esa energia
Que vem povoar a terra
E dar continuidade
À essa coisa esquisita
Que é viver
Comer cagar mijar feder
Embrenhar a fêmea amada
Pra depois retroceder
E começar tudo de novo
Que é como o mundo deve ser.

Meu poema. (Sujeira escrita e publicada)


Eu? Morte promissora, carta marcada.
Anuncio, preludio, o anti-samba
Meu carcere, cela de carne
Fria por fora, fria por dentro
Me acabo, se me pergunto
Me respondo, me confundo

O eu já não é, agora somos
Coletivos individualistas
Se me pergunto, me calo
Me segue o mal trato
O destrato, o descaso
Se sou devo haver de ir
Se vou, nada mais sou do que ser

Nós? Base istantânea de matéria viva
Reprodução afirmada e continua
Perpetua, espécie foraz, que devora
Não, já não quero, já não sou
Já deixei, despreciso, desnecessito
Desquero, não faço parte.
Ou faço
E muito, no adentro, adultério
Alcool, nicotina, morfologias de palavras simples
Dores, gostos, pernas e cabelos e afins
Sim, ainda sou, embora deixe de ser
Embora morra essa morte falada
Um pouco a cada dia
E mais e mais durante a noite
Preciso do ato de ir, do partir
Do esquecimento profundo
Do deixar de estar no mundo
Preciso do abandono
De tudo que me foi
De tudo que me é
Que ainda me há de ser

O estar já não convence mais aos olhos
Nem ao toque, nem ao nada
O estar se resume somente em palavra
Morbidão, clareza eventual que vem e vem
E vai cedo demais, e vai e não volta
Como tantas outras coisas
Nesse sumo abrir de palpebras matinal
Mil coisas se passam
Um milhão
Entre seu dormir e seu acordar

Carrega toda energia, toda prova de energia
É o movimento pensante
Se move pelo universo, e tenta o compreender
É a energia pura do sol refletida por sua pele
Que de tão fragil e hostil, aos braços do sol envelhece

Ah, minha raça! Meus irmãos
Espécime catalogada desde os livros mais antigos
São deuses para si próprios, são heróis
São a mim, e eu, sois a vós
Uma única massa perecivel a caminhar
Com direções tão indenticas
Rumo a mesma evolução
Vivendo hoje nessa mera condição
Para amanhã provir de nosso sangue rubro
O anti-homem, o adeus eterno, o holocausto espiritual
A morte divina do que nunca viveu
O ápice corporal daqueles que foram longe demais
É por ele que eu faço parte, que me recuso a ir
Que não parto desse dia tão caótico que me espreita
Emprego-me ao dever da evolução, assim como tudo que é vivo
E me encontro, me compreendo.
Aceito essa limitada condição
Para que os que provenham
Possam ir além de olhos bocas orelhas narizes e pernas

Deixo prescrito no tempo tudo aquilo que desacretido
Que desconheço, que não sei e nem almejo a saber
Que o que é me é dado é nada, é pouca água
Que o saber de homem, é ainda menos que o saber de menino
Que homem não conhece luz, sabe nada dos gases que nunca viu.

Eu? Parte queimada de tantas partes
Doenças doente de tantos enfermos
Me consumo sobre esse corpo
Que de perto nem é meu
Nem é meu o cancêr que há de me matar
De me sugar as energias
Tal como minha pele suga ao sol
Meu cancêr, que de tanto se embebedar de mim
Há de morrer comigo
Na mesma hora, no mesmo dia
Meu pulmão furado
Meu estômago com hemorragia
Meu coração fálido
Mina imunda poesia
Todo juntos
Compartilhando a mesma cripta

Me abdico ocultamente de tudo que me apresenta
Em formas e sabores de prazer
Ao homem que sou deixo a herança
De não sermos mais o mesmo
Me divido agora em mil partes
Para que morram mais fáceis
As que já não me pertecem
E que não me reste saudade
E que não me reste esperanças
Falsas locuras diárias dadas na boca
E que morra em mim a capacidade
A crença, a vontade, o amor
que morra em mim a ilusão
de ser existência, realidade
que saíba plenamente tudo aquilo que não sou
que o que sou é explicito, estampado
em nossos rostos viris, que hão de beneficiar a terra
com os minerais componentes corporeos
que minha existencia seja esquecida por tudo o que viveu
contemporâneo a mim
que minhas referências nunca sejam remetidas
e meu nome nunca seja chamado
quando eu partir, que parta comigo o tudo
o sempre, o som, o cheiro, o beijo
sem precedentes por todo o nunca eterno
e expansivo.

Oh essa preta.


Olha o que essa preta me faz
Passa por mim perfumada
Nem se quer olha pra trás

E além de tudo é abusada
Meche o cabelo, dá risada
Abala qualquer rapaz

Oh essa preta lá em casa,
Eu nem se quer trabalhava
Não via a rua nunca mais!

Mas com ela não tem jeito
Chego nela, estufo o peito
Ela me zomba e desfaz

Essa preta é castigo
Mandada pelo divino
Pra judiar dos mortais

Foi toda feita pro samba
Tá escrito no jeito que anda
Não é pro bico dos demais

Se ela passa de repente
Dá um negócio na gente
Que palpita o coração

E se ela abre um sorriso
Vou te contar, meu amigo
A mente vira confusão

Eu  já ando até cansado
Passo o dia amuado
Sonhando com ela aqui

Peço a deus enclausurado
Que entenda o meu lado
E traga essa preta mim.