I
Porque minha carne queima em brasa,
E meu coração rompe o peito?
Porque toda noite é uma calada,
E se enxarca de suor meu leito?
Minha paz foi roubada
E no seu lugar ficou o desejo.
E agora meu corpo arde
E grita em desespero.
Porque o tempo se arrasta,
E só me cabe o anseio?
Porque são vazias minhas horas,
E sombrio o que eu espreito?
II
Onde foram as três moças
Que estavam a passear
Correndo descalças pela roça
Colhendo frutas no pomar
Onde foram as meninas
Que dançam ao meu cantar
Chupam manga e tangerina
E falam coisas sobre o mar
Onde foram? Onde foram?
Sumiram sob o luar.
Agora triste, eu morro aos poucos
E já não há mais meu cantar.
III
Venha ver que o dia raia
Que o mar quebra na praia
E não existe solidão
Venha ver que manhã linda
Que vem quando a noite finda
Rompendo a escuridão
Deixe morrer a saudade
Veja as luzes da cidade
Acalme seu coração
Que o que é meu agora é nosso
E na vida tudo que eu posso
É ser seu nessa paixão.
IV
Observe:
O primeiro ato é confundido
Desde que eu era menino
Julgava viver em vão
Mas um dia veio a chuva
Plantei maçã, plantei uva
Ficou verde meu sertão!
Em seguida veio a seca
Morreu parreira e macieira
E toda a minha criação
Foi-se embora minha querida
Deixou pra mim as margaridas
Plantadas em meu quintal
Já não faz sentido a vida
Passa noite, passa dia
O que era bem, tornou-se mal.
V
“Bem me quer, mal me quer”
Brinco eu com as margaridas
Heranças do meu amor
Que foi-se embora dessa vida
“Bem me quer, mal me quer”
Pião na rua a rodar
Dançam gatos e serpentes
Doentes de namorar
“Bem me quer, mal me quer”
Todo dia tem aurora
Mas agora vejo sozinho
Desde que ela foi embora
“Bem me quer, mal quer”
Bota o destino a passar
Vai-se a seca, vem o verde
Pipa de menino no ar
“Bem me quer, mal quer”
Acabaram-se minha flores
Nada restou da minha linda
Nem as pétalas, nem as cores.
VI
Quanto me custa a noite?
Quanto custa?
Custa as flores, os beijos
Os gritos desvairados
Os copo cheio de alcool
Os dricretos namorados
Custa o cheiro, a musica
O trago no cigarro
Me custa caro
E ao mesmo tempo barato
Me custa o arrependimento
E todo amor não amado
Custa o meu samba noturno
Gritado pra ser escutado
Quanto me custa essa queima?
Esse arder enclausurado?
Custa mil romances mórbidos
E nenhum vivenciado
Me custa o que eu tenho
E o que de mim foi roubado
Quanto custa essa noite?
Essa fome de pecado?
Custa a morte, custa a vida
Minha tristeza e alegria
Custa meu corpo, culpado.