terça-feira, 28 de agosto de 2012

Noite adentro - Aurora e outra qualquer poesia.


I
Porque minha carne queima em brasa,
E meu coração rompe o peito?
Porque toda noite é uma calada,
E se enxarca de suor meu leito?
Minha paz foi roubada
E no seu lugar ficou o desejo.
E agora meu corpo arde
E grita em desespero.
Porque o tempo se arrasta,
E só me cabe o anseio?
Porque são vazias minhas horas,
E sombrio o que eu espreito?

II
Onde foram as três moças
Que estavam a passear
Correndo descalças pela roça
Colhendo frutas no pomar
Onde foram as meninas
Que dançam ao meu cantar
Chupam manga e tangerina
E falam coisas sobre o mar
Onde foram? Onde foram?
Sumiram sob o luar.
Agora triste, eu morro aos poucos
E já não há mais meu cantar.

III
Venha ver que o dia raia
Que o mar quebra na praia
E não existe solidão

Venha ver que manhã linda
Que vem quando a noite finda
Rompendo a escuridão

Deixe morrer a saudade
Veja as luzes da cidade
Acalme seu coração

Que o que é meu agora é nosso
E na vida tudo que eu posso
É ser seu nessa paixão.

IV
Observe:
O primeiro ato é confundido
Desde que eu era menino
Julgava viver em vão
Mas um dia veio a chuva
Plantei maçã, plantei uva
Ficou verde meu sertão!
Em seguida veio a seca
Morreu parreira e macieira
E toda a minha criação
Foi-se embora minha querida
Deixou pra mim as margaridas
Plantadas em meu quintal
Já não faz sentido a vida
Passa noite, passa dia
O que era bem, tornou-se mal.

V
“Bem me quer, mal me quer”
Brinco eu com as margaridas
Heranças do meu amor
Que foi-se embora dessa vida

“Bem me quer, mal me quer”
Pião na rua a rodar
Dançam gatos e serpentes
Doentes de namorar

“Bem me quer, mal me quer”
Todo dia tem aurora
Mas agora vejo sozinho
Desde que ela foi embora

“Bem me quer, mal quer”
Bota o destino a passar
Vai-se a seca, vem o verde
Pipa de menino no ar

“Bem me quer, mal quer”
Acabaram-se minha flores
Nada restou da minha linda
Nem as pétalas, nem as cores.

VI
Quanto me custa a noite?
Quanto custa?
Custa as flores, os beijos
Os gritos desvairados
Os copo cheio de alcool
Os dricretos namorados
Custa o cheiro, a musica
O trago no cigarro
Me custa caro
E ao mesmo tempo barato
Me custa o arrependimento
E todo amor não amado
Custa o meu samba noturno
Gritado pra ser escutado
Quanto me custa essa queima?
Esse arder enclausurado?
Custa mil romances mórbidos
E nenhum vivenciado
Me custa o que eu tenho
E o que de mim foi roubado
Quanto custa essa noite?
Essa fome de pecado?
Custa a morte, custa a vida
Minha tristeza e alegria
Custa meu corpo, culpado.

sábado, 25 de agosto de 2012

O novo mostrador.


Átomos de nêutrons e prótons e elétrons
Física quântica em amores hereges
Silícios radioativos espalhados
Crianças indianas bispos e mulheres

Híbridos híbridos híbridos
Algum numero sagrado sempre o persegue
Lamentação atômica na periferia
Criamos a criação que nos precede

Camadas e dimensões que pouco diferem
Sorvete gelado nitrogênio gelado Alaska gelado
Quanto mais me aproximo mais me afasto
Da matéria que fui ao fluído que hei

Sou o novo porém renovado
Colorido pelas cores epiléticas do seu pecado
Do seu novo amor
Do som do seu rádio
Das palavras
Indizíveis
Indizivelmente
Indizíveis
O novo mostrador
A nova tela
Decapitada pela corrosão temporal
Pelo temporal corrosivo
O anti vida
O anti luz
O anti amigo
Poeticamente industrializado
Enlatado e rotulado e vendido
Pelas mais variáveis perfumadas
Biologicamente consumido

Armas e explosões envenenadas
Ciência gravada em taba de índio
Milhões de partículas indefinidas
De elementos retóricos e abrasivos

Livros de leis recém criados
Suco de laranja na manhã de domingo
Espécies de vida não catalogadas
Boiam pelo mar de verniz e acrílico

É da musica que toca
A prescrição do seu médico
Seu vago remédio
Pra curar sua cólera
Abstrata
Expressiva
Multiplicada na noite (veloz)
Pela sordidez de sua vida
Carnal e desumana
Falsa e profana
Sexual
Destemida
É do vento que te corta
Te abrindo a ferida
Cheiro de vaca morta
No longo dobrar da esquina
E na rua se sucede
Seu andar em terra divina
Qual nome te daremos?
Quais serão suas utopias?
Pode ser que seja Ana
Maria, Paula
Carolina?
Pode ser que seja sonho
Querosene
Gasolina!

O gosto do gosto que escolher
Dispersa-se pelo seus paladares
Seu e do seus clones concretizados
Biogeneticamente modificados
Prontos a testar
A falar
Admirar
Amar
Em seu nome.

Um grande poema de adeus.


Isso tudo é só um grande poema de adeus
Nossa despedida nos persegue
Nossos prazeres são ilusões
Pequenos lapsos de luz
Que pairam pelo universo
E tudo é um grande poema de adeus
Nada mais.

As horas são um adeus constante
A vida em si é pura despedida
Cada palavra, cada escolha
Se torna mais um verso
Desse poema de adeus
Envolto em seda e cetim.

Já que é assim, e vai ser pra sempre
Deixe que o mar te abandone
Deixe que as flores te ignorem
Que a vida é pedaço pequeno
Pequeno demais de tudo
E o adeus é faca cortante
Que corta e corta

Deixe que o mundo seja mais mundo
Em seu quintal de orquídeas
Doce e fatal primavera da minha vida
Deixe que os campos passeiem por seu colo
Sob a dura redenção de seu olhar de veludo
O ultimo lance de escadas para sua morada secreta
Clara e noturna como penumbra que precede o luar
Deixe que venha seus amores pela garganta
E os esparrame sobre o chão de vidro e cobre

A hora marcada palpita em cada embalo de seu coração
Ah Amanda minha, esqueça o adeus e as horas
Não deixei que o tempo nos extermine assim
A sombra do nunca é nossa caçadora fiel e atroz

Invente comigo um novo caos, uma nova forma
Um alimento inconseqüente, um ensaio de morte
Para que sejamos os pais de malte da reminiscência
Eu e você nesse universo de gases e explosões atômicas

Recrie o mesmo sonho todas as noites
Em sua cama vermelha carmesim
Em sua língua desvairada e imortal
Recrie seu sonho por mim, por nós
Deixe o adeus para os outros

Deixe que o céu te despreze
E que a musica jamais soe por você
Que o esquecimento nada combina
 Com belas histórias de amor
Deixe que o dia acabe mil vezes
Tudo isso é só um grande poema de adeus
Uma grande vida de adeus
É ser juiz e júri de si
É estar sentado no banco dos réus

Aviso aos homens.


Avise ao homens que minha vida ainda é plena,
E que minha morte é tardia.
Avise a todos aqueles que me julgaram tolo
Enquanto eu era generoso
Que não há nada que caíba mais a um homem que sua humildade
E que a tolice, em muitos casos é uma benção.
Avise aqueles que dizem que amaram mais que eu,
Que o amor é claramente abstrato
E como dizer se alguém amou mais o mar do que eu amei?
Como dizer se alguém amou mais a vida do que eu amei?
Avisem à eles que eu pouco me importo com sua vã filosofia
Que eu não ligo para o seu Deus, nem para os seus dêmonios
Digam para aqueles que me achavam louco
Que a sanidade deles não trará nenhum brilho eterno
Avisem-os que a mesma carruagem obscura que virá me buscar
Vira busca-los também!
Que eles saibam que será a mesma terra a nos decompor
A mesma morte a nos apavorar.
Avisem eles que pra mim tudo é indiferente
Que eu não quero saber sobre seus engenhos e suas artes.
Digam para aqueles que me acham triste
Para que me ensinem a medir a felicidade das pessoas.
Que eu nem se quer sabia que havia como medir tal sentimento.
Avisem aos que me dizem ignorante
Que para mim a cultura deles é forjada em mentiras e ilusões
E não me apetece me proclamar sábio dentro de bobagens.
Avisem aos religiosos, aos que me excomungaram
Que nada mais eu posso a não ser rir de tais absurdos,
Como pode outro homem me negar um reino inventado por outro homem?
Digam aos querem ser lembrados, que eu faço questão de lembra-los
Desde que todos eles me esqueçam, e nunca remetam nada mim.
Avise os ricos que eles não devem doar nada aos pobres, devem negar!
Negar e esperar que os pobres acordem e se revoltem logo contra eles.
E não se esqueçam de avisar ao solitários e decadentes
Ao indios que vivem envoltos pelo verde astuto das florestas
Ao caiçaras que tem o mar aberto como casa
Aos agricultores que cultivam o milho, a batata
Ao criadores de cabras do sertão
Digam à eles, por favor, que eu vos invejo profundamente.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Nós.


Esses pelos no meu corpo
Me mostram a cada dia
O bicho do qual eu sou
E não me há providencia divina
Se eu como:
Sento e cago!
Se eu bebo:
Logo eu mijo!
Se por acaso me corto
Me jorra um sangue vermelho
Tal como boi abatido
Nas câmaras frigoríficas
Espalhadas por aí
Eu menino
Antes ainda da palavra
O leite branco mamava
Nos peitos da mãe
Como mamam os cachorrinhos
Da sua cadela que cria
Na caixa de papelão
No cantinho da cozinha
Cheiro minha comida
Mistura de mato colhido
Com carne morta de bicho
O que mais se come?
Se come vida que se multila!
Se eu corro vem suor
Fedor que exala
Da minha pele enrijecida
Caldo que escorre de bicho
Pelas minhas axilas
Isso pra não falar do coito!
Que é que dá vida a vida
Coitar fornicar penetrar
Ser fêmea e ser invadida
E se melecar toda
Na prática repodutiva
Ser macho e apavorar
Quando passa a fêmea propicia
Sentir o cheiro do cio
Ir suar com ela
Morder ela
Lamber ela
Chupar tudo nela
Cães na rua
Nós na cama
Jogar sua saliva pelo corpo
Em todas as partes
Mastigar o cabelo
Secreções da parte intima
Sai gozo genital
Fecunda o óvulo da vagina
Passa inverno e verão
Mais uma vida nascina
A mamar mais leite branco
Cagar meleca fedida
Arrotar e vomitar
No colo da mãe querida
Que carregou na barriga
Toda esa energia
Que vem povoar a terra
E dar continuidade
À essa coisa esquisita
Que é viver
Comer cagar mijar feder
Embrenhar a fêmea amada
Pra depois retroceder
E começar tudo de novo
Que é como o mundo deve ser.

Meu poema. (Sujeira escrita e publicada)


Eu? Morte promissora, carta marcada.
Anuncio, preludio, o anti-samba
Meu carcere, cela de carne
Fria por fora, fria por dentro
Me acabo, se me pergunto
Me respondo, me confundo

O eu já não é, agora somos
Coletivos individualistas
Se me pergunto, me calo
Me segue o mal trato
O destrato, o descaso
Se sou devo haver de ir
Se vou, nada mais sou do que ser

Nós? Base istantânea de matéria viva
Reprodução afirmada e continua
Perpetua, espécie foraz, que devora
Não, já não quero, já não sou
Já deixei, despreciso, desnecessito
Desquero, não faço parte.
Ou faço
E muito, no adentro, adultério
Alcool, nicotina, morfologias de palavras simples
Dores, gostos, pernas e cabelos e afins
Sim, ainda sou, embora deixe de ser
Embora morra essa morte falada
Um pouco a cada dia
E mais e mais durante a noite
Preciso do ato de ir, do partir
Do esquecimento profundo
Do deixar de estar no mundo
Preciso do abandono
De tudo que me foi
De tudo que me é
Que ainda me há de ser

O estar já não convence mais aos olhos
Nem ao toque, nem ao nada
O estar se resume somente em palavra
Morbidão, clareza eventual que vem e vem
E vai cedo demais, e vai e não volta
Como tantas outras coisas
Nesse sumo abrir de palpebras matinal
Mil coisas se passam
Um milhão
Entre seu dormir e seu acordar

Carrega toda energia, toda prova de energia
É o movimento pensante
Se move pelo universo, e tenta o compreender
É a energia pura do sol refletida por sua pele
Que de tão fragil e hostil, aos braços do sol envelhece

Ah, minha raça! Meus irmãos
Espécime catalogada desde os livros mais antigos
São deuses para si próprios, são heróis
São a mim, e eu, sois a vós
Uma única massa perecivel a caminhar
Com direções tão indenticas
Rumo a mesma evolução
Vivendo hoje nessa mera condição
Para amanhã provir de nosso sangue rubro
O anti-homem, o adeus eterno, o holocausto espiritual
A morte divina do que nunca viveu
O ápice corporal daqueles que foram longe demais
É por ele que eu faço parte, que me recuso a ir
Que não parto desse dia tão caótico que me espreita
Emprego-me ao dever da evolução, assim como tudo que é vivo
E me encontro, me compreendo.
Aceito essa limitada condição
Para que os que provenham
Possam ir além de olhos bocas orelhas narizes e pernas

Deixo prescrito no tempo tudo aquilo que desacretido
Que desconheço, que não sei e nem almejo a saber
Que o que é me é dado é nada, é pouca água
Que o saber de homem, é ainda menos que o saber de menino
Que homem não conhece luz, sabe nada dos gases que nunca viu.

Eu? Parte queimada de tantas partes
Doenças doente de tantos enfermos
Me consumo sobre esse corpo
Que de perto nem é meu
Nem é meu o cancêr que há de me matar
De me sugar as energias
Tal como minha pele suga ao sol
Meu cancêr, que de tanto se embebedar de mim
Há de morrer comigo
Na mesma hora, no mesmo dia
Meu pulmão furado
Meu estômago com hemorragia
Meu coração fálido
Mina imunda poesia
Todo juntos
Compartilhando a mesma cripta

Me abdico ocultamente de tudo que me apresenta
Em formas e sabores de prazer
Ao homem que sou deixo a herança
De não sermos mais o mesmo
Me divido agora em mil partes
Para que morram mais fáceis
As que já não me pertecem
E que não me reste saudade
E que não me reste esperanças
Falsas locuras diárias dadas na boca
E que morra em mim a capacidade
A crença, a vontade, o amor
que morra em mim a ilusão
de ser existência, realidade
que saíba plenamente tudo aquilo que não sou
que o que sou é explicito, estampado
em nossos rostos viris, que hão de beneficiar a terra
com os minerais componentes corporeos
que minha existencia seja esquecida por tudo o que viveu
contemporâneo a mim
que minhas referências nunca sejam remetidas
e meu nome nunca seja chamado
quando eu partir, que parta comigo o tudo
o sempre, o som, o cheiro, o beijo
sem precedentes por todo o nunca eterno
e expansivo.

Oh essa preta.


Olha o que essa preta me faz
Passa por mim perfumada
Nem se quer olha pra trás

E além de tudo é abusada
Meche o cabelo, dá risada
Abala qualquer rapaz

Oh essa preta lá em casa,
Eu nem se quer trabalhava
Não via a rua nunca mais!

Mas com ela não tem jeito
Chego nela, estufo o peito
Ela me zomba e desfaz

Essa preta é castigo
Mandada pelo divino
Pra judiar dos mortais

Foi toda feita pro samba
Tá escrito no jeito que anda
Não é pro bico dos demais

Se ela passa de repente
Dá um negócio na gente
Que palpita o coração

E se ela abre um sorriso
Vou te contar, meu amigo
A mente vira confusão

Eu  já ando até cansado
Passo o dia amuado
Sonhando com ela aqui

Peço a deus enclausurado
Que entenda o meu lado
E traga essa preta mim.

Perdição.


A minha fulga é diária
Cotidiana
Meu alimento é raro
Novidade plausível
Lithium inviolável
Meu amor é câncer
Doença sem cura
Constante loucura
A me roubar
Me desfazer
Em mil partes
Mil obras de arte
Espalhadas pelas ruas
Pelas pernas
Das mulheres nuas
Na cama, no cinema
É nítido meu dilema
Meu claro problema
É caos
É profano
Meu amor é desumano
Contigente, observador
Palavra suja de sangue
Siri escondido no mangue
Mordida no pescoço
Latido de cachorro
Minha fulga é incontrolável
Ato secreto
Inotável
Criança brincando no pátio
Senhoras e senhores
Na missa de domingo
Que após perder no bingo
Vão cantar os seus louvores
Meu alimento é naúfrago
Perdido em alto mar
Nem homem nem ninguém
É capaz de encontrar
Capitão de návio mercante
Sem bússula, sem levante
Vagando sem direção
Subtamente perdido
Minha tristeza é metal
Forjada pelos anos
Vividos sem perdão
Forjada pelos anos
Vividos em maldição
Em contradição
Meu amor é cólera
Facada certeira no peito
Fratura exposta no ombro
Tiro de perto no joelho
Infarto sem precedente
Suícido escrito na carta
Disfarçado de acidente
Meu amor é o cúmulo
De tudo o que há em mim
Não mais do que no mundo
Meu amor, em pólvora
É meu começo, meio
E fim.

Meu carnaval é todo dia.


Aqui na poesia
Meu som se desfaz em sound
Quebra o ritmo, faz disritmia
Com seu suingue eu vou
Vou que vou, dançando a sua melodia
Nessas suas pernas de flor
Eu canto e me encanto
Ao sabor da sua saliva
É hoje que eu vou
Com seu suingue e poesia
Vou eu perseguindo seu cheiro
Dia e noite, noite e dia
Por todo tempo, o tempo inteiro
No balançar dos seus cabelos
Nosso amor é na avenida
Seu gingado, seu molejo
O seu beijo é revelia
E hoje eu vou, vou que vou
Porque a gente é do samba
Nosso lema é alegria
Cada passo é uma dança
Cada dança uma folia
Quando você vem pra mim
O carnaval é todo dia
E eu vou, com você  de anfitriã
Me fazendo de sambista
O delírio se espalha
Quando a gente entra na pista
Eu e você, você e eu
Embriagados de euforia
Nesse samba pra você
Pra você que é minha vida!

a� G p �e � ss=MsoNormal>Eu me perdi perdidamente
No paraíso de seus braços.
III
A revolução acontece devagar
Vem de dentro pra fora
Até que a noite se converte em aurora
E basta uma primavera para podermos cantar
E cantamos
Enquanto as flores desabrocham
Nós cantamos
Em cada flor uma revolução
O cheiro da primavera árabe
Aos poucos vem batendo
Nessa América do Sul
Nessa nossa América do sul
Vem chegando também a primavera.
IIII
Volte ao principio
Onde começou tudo
Você se lembra?
O tempo vai passar
E nossa história ficara guardada
Muito além de nós
Como as flores esperaram
Para serem admiradas
Esse conto permanecerá
Até que alguém o ache bonito
E remeta a nós, e nos imagine
E sonhe em viver o que vivemos.
Guardo comigo teu sono em veludo
Tuas tão doces histórias
Teu confuso mundo absurdo
Não diga mais nada
Apenas durma
Que aqui eu te guardo
Dentro e além do tempo
Passeando em teu corpo
Como seu convidado
Ah, não diga mais nada
Deixe que o sono te leve e desfaça
Tudo o que não for teu
E que ao fim desse sono
Quando acordar
Nada mais tenha sobrado
Só o mergulho isolado
Em meu oceano particular.

Hiroshima mon amour.

Hiroshima mon amour
Como uma antiga canção
Delícias soltas ao vento...
Um caminhar a beira-mar doce e lento
Como é grande minha pretensão.

Hiroshima, Niróbi i Hanói
Mi cuerpo habla a su
Que es uma traducción de mi cuerpo
Y como um mágico encanto
Me entrego a la surte de ir por la vida esperando por ti!

Meu amor, sereno, distante e prodígio,
Mal amor moldado em mim inda menino
Je ne sais pas quoi d’autre à vous dire
Ne savent plus ce que je fais.

Quero um filme sobre nós dois
E que se passe em Singapura
Nós dois perdidos pela rua
Sem que exista depois.

Hiroshima, mais uma bomba suícida
Minha vodca, meu sangue, minha dose de tequila
Es que yo soy mi próprio dueño
Y no doy con facilidad.

Sou escrito, prescrito, sou passado
E meu futuro não se rega com agua
E nem há ilusão que me faça criar
E recriar ilusões perdidas.

Hiroshima  mon gran amour
Quisera eu explicar esse verão
Essa condição de veraneio
Que vem anunciando nas flores
A esperança, nossa próxima estação.

Hiroshima, Luanda, Bangkok
Este calor despierta pasiones
A veces suave, a veces alucinante
Me puede dar a mí, es todo lo que mi amor por ti
Y lo que irrita a mí es pasar todos estos días sin ti!

Tudo isso é por ti, toda canção
Todo amor, toda África negra
Toda  América apaixonada
O rádio toca na América do Sul
E não tem hora, e não tem tempo
Tudo se toca na América do Sul
Rapidamente, quase esguio
América do Sul, a poesia ocidental
Terra de todos os cantos
De todos os santos
Nossa terra.

Hiroshima, tão distante, tão distante
Bogotá, Santiago, Fortaleza
Vamos juntos, você e eu
Eu e você em todas as cidades
Todas as noites, todos os bares
Todas as pessoas do mundo e nós.

Quero contigo um amor Caetano
Roman Polanski, Almodóvar
Maga rosa, Maracujá, margarida
Quero contigo viver minha vida.
E não há melhor destino
Que passar uma vida contigo.

Hiroshima, mon amour
Suas mulheres, suas crianças
Seu quase esquecido orientalismo
Hiroshima, violada menina.

Las noches de calor comienzan em Rio de Janeiro
También coimienzará em La Habana
Llega el hedor del romance em los vientos del norte
Las cosas empezaron a ir bien.

Hiroshima, Tel Aviv, Adis Abeba,
Dios mío, que ermoso es este mundo!
Pues sus canciones son hermosas
Su gente, sus amores, su mar...
Dios mío, qué hermosa es su mar!

Andar aqui é gostoso
É passear em si mesmo
O nosso clima é bom
E nossas mulheres, apaixonantes.

Hiroshima, mon amour
Ressucitada Hiroshima
Você calada, exagerada
E eu na América Latina
A sonhar com o Saahara
Oasis, lutas de espada
Roupas longas e tabaco
E eu na América Latina
Oito meses em um barco
Quase me esqueço de Minas
Morto e ressucitado
A sonhar com Hiroshima
Explosões sem proporção
Crianças chorando na esquina
Tudo move o mundo todo
E eu na América Latina
Nessa América do Sul
Minha  América do Sul
Conquistando minha menina
Oito meses em um barco
Quase esqueço minha vida
Cai a bomba, chegam as águas
E eu na América Latina

Hiroshima, mon amour
Meu cinema, minha flor
Minha missa, meus dias
Minha Hiroshima, rosa esquecida
Rosa detida, rosa proíbida
Em vão tento traduzir
Em palavras, Hiroshima.

Hiroshima, Bangadesh, Balí
Estar aqui é meu destino
Ser seduzido por você é meu destino
Sua sedução vem pelo mar e atinge meu coração americano
Traz delírios, sonhos, brisa salgada, música.

Eu me lembro de você
Por quantas vezes estivemos juntos?
Em Hiroshima todos os caminhos levam ao mesmo lugar
Dez mil graus, o calor do sol nas ruas
Porque tu, Hiroshima?
Tão doce, tão linda
Tão feira para o amor
Porque?

Cómo tanto amor para quemar?
Cómo tantos niños?
Cómo?
Hiroshima, mil vezes estive em Hiroshima
E duas vezes estive com você
Dois beijos foi o que você me deu
E a graça de te esperar, e esperar e esperar

Não canto canções
(não mais)
Nem alimento paixões
(não mais)
Escrevo por ti
E por Hiroshima
Escrevo pela América do Sul
Escrevo pelos trópicos
Por esse verão que é vem chegando
Por seus cabelos negros
Como a África, como Luanda
Escrevo de tanto amor que tenho por ti
Escrevo por Godard, escrevo por Galdi!
Aqui, nessa terra de errados, apaixonados
Estamos nós, perdidos, sonhando.

Hiroshima, contos de amor por demais
Quantos choraram por Hiroshima
Hiroshima, mon amour
Hiroshima, nunca mais!

Meu oceano particular.


Sou eu e eu diante à mim
Percorrendo vários holocaustos
Traduzindo ato a ato
Faço bom o que é precário
No som que vem precedido
Silêncio da hora mudado
Escondidos pelas trincheiras
Vão morrendo os namorados
Disfarçados com arma e farda
São agora só soldados
Preferem o tiro ao beijo
Fazem certo o que é errado
Enquanto o céu anuncia a glória
Na terra eu, apaixonado
Meu escândalo é metal
Ano após ano forjado
Só falo por meias palavras
Códigos indecifrados.
II
A noite é menos noite sem ela
Eu me perdi no paraíso de seus braços
E perdido me escondi
Para nunca mais ser encontrado
E assim permanecer ali
Ensaiando pra ser afogado
Suspenso em pleno mar
Preso por suas pernas
Meu oceano particular
A noite é mais noite com ela
É um enlace meio embaraçado
O mundo acontece lá fora
Entre nós é reinventado
O começo do começo
Redescoberto, reencontrado
Eu me perdi perdidamente
No paraíso de seus braços.
III
A revolução acontece devagar
Vem de dentro pra fora
Até que a noite se converte em aurora
E basta uma primavera para podermos cantar
E cantamos
Enquanto as flores desabrocham
Nós cantamos
Em cada flor uma revolução
O cheiro da primavera árabe
Aos poucos vem batendo
Nessa América do Sul
Nessa nossa América do sul
Vem chegando também a primavera.
IIII
Volte ao principio
Onde começou tudo
Você se lembra?
O tempo vai passar
E nossa história ficara guardada
Muito além de nós
Como as flores esperaram
Para serem admiradas
Esse conto permanecerá
Até que alguém o ache bonito
E remeta a nós, e nos imagine
E sonhe em viver o que vivemos.
Guardo comigo teu sono em veludo
Tuas tão doces histórias
Teu confuso mundo absurdo
Não diga mais nada
Apenas durma
Que aqui eu te guardo
Dentro e além do tempo
Passeando em teu corpo
Como seu convidado
Ah, não diga mais nada
Deixe que o sono te leve e desfaça
Tudo o que não for teu
E que ao fim desse sono
Quando acordar
Nada mais tenha sobrado
Só o mergulho isolado
Em meu oceano particular.

Do que gosta? O que faz?


Você não gosta deles?
Você não gosta deles?
Perguntava eu, em vão
Ao longe ela gritava:
Não não não não!

Gosta de creme de amendoin?
De bobó de camarão?
Com cara de tacho olhava pra mim
E só fazia gritar assim:
Não não não não!

Tem amigos na Argentina?
Namorado? Um irmão?
Ela toda desintendida
Já com a voz enrouquecida
Se despia em:
Não não não não!

Faz aulas de piano?
Fala um pouco de alemão?
Já quase murmurando
Me enchendo de espanto
Exlplodiam seus:
Não não não não!

Mas se pergunto:
“Tu me amas?”
Esquece tudo quanto é não
Todo choro vira riso
E com seu hálito de jasmim
Cochica baixo em meus ouvidos:
Sim sim sim sim!

Intriga.

Ela me deixou uma carta de amor
Que no final dizia:
“Fique com seu X box
Que eu fui morar na Bahia
Fui só com a roupa do corpo
E peguei sua moto escondida
Marquei na sua conta do posto
Um tanque de gasolina
Te deixo um beijo no rosto
E várias lembranças minhas
Um pena ter da errado
E eu ter que deixar o seu lado
Pra ir morar na Bahia”
Fiquei muito injuriado
Chorei duas noites e um dia
Comi o pão do diabo
Me acabei  todo na birita
Até que um dia acordei
E resolvi mudar de vida
Vendi meu X box
Comprei passagem só de ida
Pedi logo demissão
Apertei eu coração
Fui ver minha nega na Bahia!

Um grande poema de adeus.


Isso tudo é só um grande poema de adeus
Nossa despedida nos persegue
Nossos prazeres são ilusões
Pequenos lapsos de luz
Que pairam pelo universo
E tudo é um grande poema de adeus
Nada mais.

As horas são um adeus constante
A vida em si é pura despedida
Cada palavra, cada escolha
Se torna mais um verso
Desse poema de adeus
Envolto em seda e cetim.

Já que é assim, e vai ser pra sempre
Deixe que o mar te abandone
Deixe que as flores te ignorem
Que a vida é pedaço pequeno
Pequeno demais de tudo
E o adeus é faca cortante
Que corta e corta

Deixe que o mundo seja mais mundo
Em seu quintal de orquídeas
Doce e fatal primavera da minha vida
Deixe que os campos passeiem por seu colo
Sob a dura redenção de seu olhar de veludo
O ultimo lance de escadas para sua morada secreta
Clara e noturna como penumbra que precede o luar
Deixe que venha seus amores pela garganta
E os esparrame sobre o chão de vidro e cobre

A hora marcada palpita em cada embalo de seu coração
Ah Amanda minha, esqueça o adeus e as horas
Não deixei que o tempo nos extermine assim
A sombra do nunca é nossa caçadora fiel e atroz

Invente comigo um novo caos, uma nova forma
Um alimento inconseqüente, um ensaio de morte
Para que sejamos os pais de malte da reminiscência
Eu e você nesse universo de gases e explosões atômicas

Recrie o mesmo sonho todas as noites
Em sua cama vermelha carmesim
Em sua língua desvairada e imortal
Recrie seu sonho por mim, por nós
Deixe o adeus para os outros

Deixe que o céu te despreze
E que a musica jamais soe por você
Que o esquecimento nada combina
 Com belas histórias de amor
Deixe que o dia acabe mil vezes
Tudo isso é só um grande poema de adeus
Uma grande vida de adeus
É ser juiz e júri de si
É estar sentado no banco dos réus